A posição de que os Estados Unidos teria agido deliberadamente de forma imperialista na operação que culminou na prisão de Nicolas Maduro e sua esposa pode esbarrar meramente na realidade atual da América Latina. No entanto, quem quer enxergar isso?
Quando os Estados Unidos direcionou sua frota do Sul rumo à Venezuela, recebeu imediatamente o apoio da Guiana, com quem Maduro iniciou atritos em função do controle da região de Essequibo.
Considerando que o governo venezuelano vinha enfrentando uma crise crescente com os EUA, a semelhança da disputa por Essequibo com a disputa da ditadura Argentina pelas Ilhas Malvinas pode não ter sido uma mera semelhança. O presidente da Guiana, Irfaan Ali, disse ser favorável à iniciativa do governo de Donald Trump, visando combater cartéis de drogas na América Latina, que poderia culminar em um ataque à Venezuela.
A Guiana não estaria sozinha na América Latina em seu antagonismo contra Nicolas Maduro. O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, vinha articulando há tempos com os Estados Unidos – oficial e extraoficialmente – contra o apontado líder do Cartel Del Soles. Em março do ano passado, Bukele participou de uma reunião com Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, e Erik Prince, o fundados da empresa de mercenário que era conhecida como Blackwater.
Na pauta da reunião estiveram assuntos como apoio aos EUA para a deportação de criminosos latino americanos, entre outros temas que provavelmente não estavam distante do debate sobre o controle do narcotráfico na AL.
Ora, estamos tratando aqui de gente grande querendo enfrentar um problema crônico de nosso continente, e a solução obviamente não seria continuar enxugando gelo. Para se ter uma ideia, o governo do Haiti fechou um contrato de 10 anos com Erik Prince – durante esse mesmo período em que questão – para debelar o narcotráfico. O contrato prevê uma ação inicial, já em andamento, para a formação de um exército de mercenários e o ataque às gangues de traficantes com tecnologia de drones que Prince foi buscar na Ucrânia.
Os ataques aos traficantes são feitos com alta tecnologia e gravados em vídeo, tornando-se um portfólio vivo de ações dos mercenários de Prince.
Chamado para uma reunião, em julho do ano passado, com empresários no Peru, a convite do presidente Hernando de Soto, o mercenário apresentou esses vídeos, mostrando a eficácia de suas ações para-militares. No Peru, Prince também participou de entrevistas em emissoras locais e, ao lado de Soto, afirmou que está no país para fornecer “treinamento para unidades policiais e militares”.
Em março do ano passado, o governo do Peru declarou estado de emergência na capital do país, Lima, após uma onda de crimes na região. O principal problema apontado por autoridades locais tem sido as atividades de grupos criminosos.
Tais grupos criminosos estão intimamente ligados ao narcotráfico, e o narcotráfico notoriamente tem origem, na América Latina, em quatro países: Peru, Bolívia, Colômbia e Venezuela. Outros países sofrem as consequências do comércio de drogas que tem origem nos países citados. Brasil, Suriname, Guiana e Chile são exemplos claros desse problema. O porto de Santos, aqui no nosso país, é um ponto de partida de drogas para a Europa e para a África, por exemplo.
O poder do narcotráfico extrapola a área criminal e invade a política, e todos sofremos as consequências disso. A Venezuela, um país de 30 milhões de habitantes viu 8 milhões de pessoas deixarem seu território em função disso – praticamente um quarto da população.
Seria muita ingenuidade acreditar que a América Latina não tenha chegado ao limite de tolerância com o narcotráfico.
