“Nós estamos negociando com os Estados Unidos para não apenas prender Maduro, mas também para trazer (à prisão) todos os políticos corruptos da América Latina”, disse Nayib Bukele, presidente de El Salvador, recentemente. Este pronunciamento, que circula hoje pelas redes sociais, coloca luz sobre o que vem acontecendo nos últimos meses no nosso continente.
Vamos aos fatos.
Nos anos 1980, os Estados Unidos, envolvido na Guerra Fria contra a União Soviética, adotou uma arriscada estratégia de ação que apresentou, ao longo das décadas, alguns sérios reveses. De acordo com o jornalista norte-americano Bob Woodward (um dos responsáveis pela revelação do escândalo de Watergate), no livro VEIL: As Guerras Secretas da CIA, o Congresso dos EUA deixou a CIA de mãos atadas obrigando que qualquer operação de inteligência a ser executada abaixo do Rio Grande – na fronteira com o México – deveria passar pelo crivo da Câmarsa e do Senado.
A determinação legal e política forçou o Executivo a buscar soluções “criativas” para tentar conter a influência da URSS na América Latina. Um exemplo disso foi a operação de 1981, no Suriname, que foi combinada com o então presidente brasileiro João Batista Figueiredo, a fim de controlar as eleições naquele país, que estava correndo sob influência cubana. Agentes do SNI com apoio dos fuzileiros navais brasileiros se infiltraram no país a fim de executar a missão.
Mas não era suficiente buscar esse apoio de países então aliados, como Brasil e Argentina. Era preciso ter recursos para usar suas próprias estruturas de inteligência e operacionais. O resultado disso foi a formação de alianças com o narcotráfico na América Latina.
A prisão do general Manoel Noriega em 1989, então presidente do Panamá, gerou um escândalo que foi chamado de Irã-Contras (assistam Made in América, com o Tom Cruise). Anos depois, com o colapso do Haiti, mais uma vez foi demonstrada a ligação dos serviços de inteligência norte-americanos com o narcotráfico (assistam aos longa metragem Miami Vice, de 2005). Mas já nessa época, em torno do início dos anos 2000, a postura do governo dos EUA já era de tentar uma contenção do mostro que havia sido criado. E realmente era um monstro.
O narcoestado que se instalou na Venezuela, de Chavez a Maduro, era a solidificação da estrutura do narcotráfico que havia ganhado impulso como fonte de renda para operações de inteligência anti-URSS. Com uma arrecadação global chegando perto de US$ 700 bilhões de dólares por ano, com um investimento mínimo, o narcotráfico já era como um polvo, espalhando tentáculos por vários países.
Some-se a isso à expansão da exportação de tecnologia de fraudes em eleições com o sistema Smartmatic, de criação venezuelana. Era tudo muito conveniente. O narcotráfico precisa eliminar riscos em fronteiras, e governos eleitos de forma ilegal, colocando criminosos no poder, garantia exatamente fronteiras abertas como peneiras estragadas.
Um narcoestado precisa de muito pouco para manter um fluxo absurdo de entrada de capital. Vejamos o caso venezuelano: mesmo com a maior reserva de petróleo do mundo, o governo deixou sucatear toda a infraestrutura petrolífera em detrimento dos lucros do narcotráfico. O povo? Dane-se o povo. O dinheiro vai entrar de qualquer jeito utilizando uma pequena parcela de criminosos da população. Afinal de contas, diante do povo desarmado, basta poucos criminosos para controlar milhares de habitantes. Nada diferente do método de controle de judeus utilizado na Alemanha Nazista.
Aqui entra Bukele. Ao assumir o governo em El Salvador, a sua promessa era de eliminar o poder dos “quadrilheiros” ligados ao narcotráfico. Nada diferente do que existe no Haiti, na Colômbia, na Venezuela ou no Brasil. Ele utilizou estratégias duras para vencer o crime. E conseguiu.
Mas ele sabia que não bastava colocar na cadeia os bandidos salvadorenhos. Era preciso controlar a oferta de drogas, que é a fonte de renda fácil para criminosos.
Em 2025, à margem da mídia tradicional, um nome conhecido voltou a ter exposição: Erik Prince.
Erik Prince é um forças especiais norte-americano fundador da empresa de mercenários Blackwater, que enriqueceu com a primeira guerra do golfo, com apoio de Bush filho. Ele reaparece no cenário internacional com uma série de contratos na América Latina: no Haiti, rumores de contratos no Equador, no Peru e em El Salvador.
Todos os contratos ligados ao combate ao narcotráfico.
A imprensa norte-americana associou isso imediatamente ao risco de Prince estar formando um exército de mercenários sul-americanos para atuar, de forma completamente extra oficial, para o governo Trump. Oficialmente, o negócio dele era com governos locais.
Mas era exatamente Prince que pedia ao governo dos EUA o aumento do valor da recompensa pela cabeça de Maduro. Quando o governo ianque oferecia US$ 25 milhões, ele pedia US$ 100 milhões. Quando Trump aumentou para US$ 50 milhões, Prince publicou em suas redes sociais: “Pode ser morto?”
Não veremos isso em nenhum noticiário, não de forma direta, mas Erik Prince se reuniu com o presidente ucraniano Wladimir Zelenski meses antes do início da guerra para propor a criação de uma fábrica de armas e de uma academia de treinamento de mercenários insurgentes da região da Ásia Menor. Para alguns, a tal proposta teria colocado Putin de orelha em pé. Para outros, talvez tenha servido de estopim para a guerra.
Anos depois, com contratos com governos centro e sulamericanos, encabeçado pela influência de Bukele, Prince forma um exército de mercenários regionais, sulamericanos, que seria considerado invisível na Venezuela e na Colômbia, por exemplo. Homens bem treinados, com as etnias locais, controle das línguas e dialetos locais e conhecedores profundos da cultura e do terreno. Homens com ligações pessoais, políticas e militares.
Detalhe: tudo isso sem ter que prestar contas com governo algum. Será que isso foi por acaso?
Trump, sabendo que Putin está encalacrado com a guerra da Ucrânia, e que a China não queimaria cartuchos defendendo Maduro, deu o sinal verde para a operação militar no Caribe.
A ação da força Delta levou minutos para colocar Maduro e a esposa dentro de um helicóptero que pousou no Iwo Jima.
Mais do que o petróleo, talvez o grande interesse norte-americano seja realmente reparar o erro que cometeu nos anos 1980, que acabou criado os narcoestados na América Latina.
Bukele coloca isso com todas as letras.
