2026 – Nicolas Maduro é preso em uma operação militar promovida pelos Estados Unidos.
2011 – Muamar Kaddafi é deposto e assassinado por mercenários contratados pela OTAN para lutar contra o governo líbio.
Semelhanças: dois casos de deposição de ditadores por forças estrangeiras.
Diferenças: a Líbia compartilhava, junto com a África do Sul, o posto de maior IDH da África. Os líbios não estavam fugindo para outros países. Na Tunísia, onde estive durante a guerra da Otan contra Kaddafi, as pessoas comentavam que os líbios não tinham motivos para querer depor o seu líder. Tunisianos apontavam residências de praia em seu país que eram de professores líbios, comerciantes, funcionários públicos.
Na Venezuela, 7 milhões de pessoas já haviam abandonado o país em busca de melhores condições de vida. Como isso não bastasse, as ligações do governo com o narcotráfico eram apontadas como sendo oficiais e o Estado perseguia e matava seus opositores. A Venezuela havia, até 2025, passado pelas três últimas eleições gerais sem o reconhecimento internacional de lisura e transparência.
Diante disso, é preciso avaliar o motivo da imprensa internacional apresentar defesas do governo venezuelano.
Algumas manchetes apontam o que seria uma incoerência escandalosa, como, por exemplo: “Operação de Trump para prender Maduro abre perigoso precedente”. A operação norte-americana executada no dia 3 de janeiro de 2026 difere em que das ações para depôr Saddam Hussein ou Kaddafi? Mais uma vez, vamos avaliar os pontos em comum. Tanto Kaddafi, quanto Saddam e Maduro controlavam países com gigantescas reservas de petróleo. No caso da Líbia, poucas vozes na mídia apontaram o fato de que a França e a Itália, que encabeçaram a ação contra o ditador Kaddafi deviam bilhões para a Líbia, em função da compra de petróleo. Quase ninguém apontou que seria este o motivo da guerra de 2011. No caso de Saddam, a unanimidade era maior ainda. O mundo inteiro parecia ter sido um dia vítima do líder iraquiano, festejando sua deposição.
Tanto a Líbia quanto o Iraque até hoje são o sinônimo de não-estados. Os dois países foram dizimados e nunca mais se reergueram. Mesmo após a queda de seus tiranos, o mundo parece ter dado as costas a seus povos.
Mas e quanto à Venezuela? Ora, é claro que é cedo para saber o que será do país, mas já estamos vendo a mídia defender a autodeterminação dos povos, criticar Trump por fazer o mesmo que outros líderes fizeram em outros momentos com países que compartilhavam o mesmo tipo de fortuna.
Qual seria então a diferença?
A diferença está no narcotráfico. Nem Saddam nem Kaddafi cohabitava com o narcotráfico da forma como Maduro vinha fazendo. Não sabemos ainda se Maduro era o líder ou apenas um líder, mas estamos vendo o poder do narcotráfico usando a imprensa internacional para um trabalho de relações públicas da ditadura venezuelana. Parece que Maria Corina não ganhou no ano passado o Nobel da Paz. Parece que nunca um tirano havia sido deposto antes por forças estrangeiras, para o debate hoje ser que Trump pode estar criando um precedente nocivo para a civilização. E o curioso é que no mesmo dia em que Maduro foi preso, a imprensa recordou imediatamente da prisão de Noriega no Panamá, em 1989. A própria BBC publicou reportagem apontando a semelhança dos casos, para, no dia seguinte, questionar a criação de um precedente. Não teria sido criado tal presente em 1989? Em 1991 com a invasão do Iraque? Em 2004 com a prisão de Saddam? Em 2011 com a morte de Kaddafi?
Sim, onde há fumaça costuma haver fogo.
