Uma breve conversa com uma jovem tunisiana que despreocupadamente deixava a região em conflito coloca (mais) perguntas no ar
Molka Mahjoubi, com apenas 22 anos, está já com seu mestrado em economia em andamento. Ela entrou na escola aos 5 anos e sempre foi a mais nova da turma. Ontem, dia 15, ela estava aguardava o embarque para São Paulo no aeroporto Charles De Gaulle, onde eu aguardava, junto com mais oito brasileiros, o avião para seguir ao país de Molka, a Tunísia. Ela sorriu, despreocupadamente e comentou: “Você não é da Tunísia? Mas parece que nasceu lá. Passa por um de nós”.
A primeira coisa que tivemos vontade de perguntar à Molka, depois de saber que ela era tunisiana, foi sobre o que ela estava achando dos eventos em seu país. Horas antes, havíamos conversado via Skype com nosso contato líbio em Túnis sobre a nossa rápida passagem no país rumo a Trípoli. A informação era de que teríamos que passar a noite lá, pois havia conflitos sérios na região da fronteira entre os dois países. Molka não pareceu muito assustada com a situação, ela que havia acabado de deixar a Tunísia rumo ao Brasil. “As manifestações são pacíficas”, afirmou, franzindo as sobrancelhas em uma reação internacionalmente conhecida, como quem diz “as pessoas estão exagerando”.
Exagero ou não, a nossa delegação embarcou no vôo para Tunis com a certeza de que passaríamos a noite no país onde foi filmado o primeiro filme da saga Guerra nas Estrelas. O deputado Protógenes Queiroz, dentre nós o mais acostumado com adrenalina, em função de sua recente carreira na Polícia Federal, foi taxativo ao afirmar que seria loucura viajar de carro, mesmo que em um comboio reforçado, à noite, numa fronteira entre duas nações vivendo conflitos separados. “A Tunísia está vivendo um momento tranquilo, apenas com as manifestações, mas a Líbia representa perigo”, afirmou a jovem tunisiana, mestranda em Economia.
Anacrônica
Diferentemente do que vem acontecendo em sua terra natal, a Líbia vem sendo alvo de um bombardeio promovido pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma anacrônica aliança militar criada para enfrentar o Pacto de Varsóvia (os países da Cortina de Ferro, liderados pela extinta União Soviética) e hoje funcionando mais como uma “Legião Estrangeira” dos Estados Unidos.
Essa Legião Estrangeira, por coincidência, vem sendo liderada pelo presidente francês, Sarkozy, em uma dura cruzada contra a nação liderada há cerca de 40 anos por Muamar Kadaffi. No aeroporto Charles De Gaulle bastava uma passada pelas incontáveis lojas de jornais e revistas para constatar que a guerra de Sarkô contra a Líbia vem ganhando ampla cobertura da imprensa – principalmente sob o enfoque europeu. Nosso propósito, indo conferir pessoalmente a situação da Líbia, é tentar ajudar a ressuscitar aquela que é a primeira vítima em qualquer guerra: a verdade.
A bordo do avião para Túnis os jornais continuavam os mesmos e a preocupação de entrar em uma região de conflito aumentava, mas não a ponto de tirar o bom humor da delegação brasileira. “Explique-me como se diz ‘não atire em mim’ em árabe”, perguntei, eu, com minha cara de tunisiano à Molka, antes de deixar o Charles De Gaulle. Ela riu: “Não vai precisar disso. Além do mais, nossa língua é uma mistura de árabe, inglês e francês. É fácil se comunicar lá”. Provavelmente ela tem razão. O maior risco de se tornar alvo, na Líbia, vem do bombardeio aéreo.
Quem explode o quê?
Amanhã:
